quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Rock'n roll, eletricidade, individuação e física contemporânea

Quando uma pedra choca na outra, libera partículas, faíscas, objetos se partem, liberam energia e criam coisas novas. O rock'n roll, o bom rock, é indissociável dessa sensação de quebra, dessa sensação de energia liberada. Não precisa de muitas notas, basta que produzam esse efeito, basta que a batida no instrumento libere tais partículas que não se deixem reger pelo sistema de notação. O vigor colocado pelo rock no cenário musical não é dissociado desse vigor contido na execução da música. Não é de se estranhar que o rock esteja tão ligado à instrumentos elétricos. É que a eletricidade não se deixa reger pela lógica aristotélica do sujeito-cópula-atributo. Em um fenômeno elétrico energia é igual à massa, e vice-versa. E=mc2. Nada seria tão absurdo aos olhos do paradigma científico nascido com Galileu. Mas essa formula coloca em xeque também todo um sistema de pensamento, desde concepções científicas como também concepções éticas, valores morais e estéticos. Se energia é igual à massa cai por terra aquele velho dualismo de corpo e alma, resquício cristão, no qual estávamos acostumados a pensar, e através do qual fundamentávamos nossas concepções éticas. Um corpo é um condensado energético e não existe à parte de todos os outros. A intensidade de uma coisa já não é mais a intensidade de uma coisa. A qualidade não se dissocia da matéria como um atributo de um sujeito. A intensidade e a coisa são o mesmo, não se separam, e a intensidade de uma vida talvez valha mais do que sua duração. O próprio corpo não é algo estático, é um campo de intensidades, extático. No rock, assim como na eletricidade, a individuação já não se dá pelo estabelecimento de limites no entorno, pela identificação de um conjunto estável, pela atribuição de uma coisa à outra, mas pelo conjunto de coisas que põem em movimento, pelo que fazem rolar, porque pedra que rola não cria limo!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Arnaldo Antunes: Ao vivo lá em casa



Arnaldo Antunes é mais um caso daqueles que amadureceram com a idade. Como um bom vinho, se tornou mais suave e mais acentuado, sem o vigor da juventude, porém mais encorpado. Lançou o seu último álbum: “Ao vivo lá em casa”. O que há de incomum neste álbum é o fato de fazer jus ao título: foi gravado em um show ao vivo e na própria casa do cantor/poeta/teórico e crítico de arte. Enquanto muitos jovem artistas reproduzem o passado cantando descalço em grandes casas de show, Arnaldo Antunes, do auge de sua moderna velhice, recebe o público em casa – e, pasmem! – de sapato nos pés. Desde seu nascimento a arte moderna já é marcada pelo rompimento dessa dualidade interior/exterior. Na segunda metade do séc. XIX Allan Poe já narrava as histórias do “Homem das multidões”, Baudelaire anunciava que o poeta perdeu sua auréola no meio da rua, e as imbricações entre a arte, as tecnologias nascentes e o que ocorria nas ruas. Os impressionistas sairam de seus ateliers para pintar “en plein air” e captar as radiações da luz solar. Na física os fenômenos elétricos levavam os cientistas a saírem de suas teorias e irem para as “ruas” a fim de compreender tal fenômeno. Na arquitetura a Torre Eifel já prenunciava essa concepção de espaço onde são imbricados o interior e o exterior, dissolvendo a dualidade entre ambos e desmoronando a relação dentro/fora. Coisa similar ocorre na poesia brasileira com os poetas concretos e o fim da poesia “confessional”, concebida como a expressão de um “eu” internalizado. Arnaldo Antunes segue nessa perspectiva: elimina a dualidade entre vida pública e vida privada (tão querida dos filósofos de gabinete!). Cria um “espaço” fervilhante onde interagem o moderno, o pitoresco e alguma coisa que ultrapassa a soma dos dois. É o caso do “terceiro incluído” que arrasta consigo os dois termos da relação, criando algo que não é nem uma coisa nem a outra. Cria-se, então, uma nova concepção do que seja “habitar”, uma nova concepção de “ser no mundo”. Arnaldo Antunes faz o que gosta, sem se preocupar em contestar, e, em sua concepção tão afirmativa elimina a velha oposição (tão cara aos profissionais da revolução) entre dentro e fora do “sistema”. Se não há nem dentro e nem fora: o que é estar dentro ou fora? “Ao vivo lá em casa” porque a casa/rua é sua! Sobre o CD? Ah, é um álbum simples, feito como comida caseira, sem pretensões de revolucionar o mundo ou o universo musical, do tipo que já não vemos mais por aí!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Teorema



“Por conseguinte, depois de descobrir, por exemplo na família terrena o segredo da sagrada família, é preciso criticar teoricamente aquela e transformá-la praticamente.” MARX/ENGELS, Teses ad Feuerbach, p. 6, § IV. 


Como já dizia o nosso bom e velho Rui Barbosa: “a família é a célula máter da sociedade”. Deturpando um pouco o sentido atribuído pelo bom ancião, e conferindo um pouco de profundidade à sua frase, diríamos que é na família onde são armados os principais aparelhos de captura da sociedade: é na infância e no seio da família onde se entronizam os principais postulados da sociedade, as suas divisões de classe, e onde se aprende a repeti-los inconscientemente. Daí porque, quando quis falar da sociedade burguesa, Pasolini entrou no seio da família burguesa. E Pasolini entra na família mostrando, inicialmente, o deserto. Deserto este que está presente tanto no final quanto no início do filme e que é o deserto do não-lugar, o “mundo inabitado” para usar a perfeita expressão de um velho amigo. O mundo onde não há desejos, onde não há pessoas, mas apenas, personalidades pré-concebidas, o mundo do sem-rosto-capiroto, o mundo do rótulo vazio. Mesmo a casa onde reside a família é uma casa vazia, apesar de ampla e abastada.
O filme desenvolve-se, todo ele, no seio de uma família burguesa: o pai, a mãe, o filho, a filha e – como não poderia faltar – este elemento acessório da família burguesa negligenciado inclusive por Freud, o quase-parente: a doméstica. Contudo, surge um elemento estranho, inominado e sem nome, no seio desta família feliz. Um jovem que penetra na família – com o perdão da ambiguidade cabível – e ao sair a deixa destroçada simplesmente por revelar os segredos de cada um. Ao filho revela os poderes da arte; à filha o amor; à mãe o sexo; ao pai sua homossexualidade; e à doméstica que ela era doméstica e não um membro da família. Segredo que ele lhe revela recusando-a em mais de um momento. O personagem misterioso é aquele tipo mais do que normal, sem poderes mágicos, sem o charme da galanteria, sem a beleza estonteante, sem a força de Sansão e, como diria Leibniz, sem “o intelecto divino de Descartes”. Nada de mais nele, enfim. Apenas um ser humano qualquer no qual as crenças e valores burgueses não foram incutidos. Apenas um indivíduo cuja individualidade não foi forjada pelos postulados burgueses da sociedade e da posição social, os quais são tão bem reproduzidos nos seio da família. O pai-patrão, a mulher-objeto, os filhos-herdeiros condenados a reproduzirem as figuras do pais, e a doméstica-domesticada. O problema não é a família em si, mas quando a família se torna edipiana, isto é, quando a família é estruturada conforme os padrões sociais: o homem, a mulher, os jovens e os assalariados (que não são nem homens, nem mulher, nem jovens, são apenas mão de obra) e os modos de individuação que correspondem a cada um. Individuação esta que não ocorre segundo os anseios de cada um mas segundo aquilo que lhe é imposto pela sociedade. 
Aquilo que o habitante desconhecido revela às pessoas desta estranha família, sempre tão comum, é apenas a carência sentimental em que vivem. Sua saída de casa provoca uma catarse na vida dessas pessoas que, ao mesmo tempo, se dão conta da vida que levam, mas que não sabem lidar com a situação e catalizam seus anseios e frustrações em atitudes que revelam, ao mesmo tempo sua necessidade de abandonar as postulados sociais que reproduzem sem saber e, por outro lado, sua incapacidade de deixá-los. O jovem que sai de casa, mas se tranca em outra; a jovem que recebe o amor, mas que o cerra em seu punho: o punho da prisão doméstica; a doméstica que se eleva, para depois se enterrar; a mulher que se dá conta de sua vida insossa e entra no desespero do sexo banal, depois na igreja, e oscila entre objeto-sexual e objeto sagrado; o homem que se dá conta de seus desejos homossexuais, mas que permanece preso à sua condição social (de macho-alfa) e não consegue se livrar dela a não ser se condenando ao deserto, como é muito bem encenado ao final do filme, momento em que o homem se despe de seu terno-camuflagem social. Que o burguês sinta-se no deserto ao despir seu terno não é senão porque não concebe outro mundo a não ser este em que vive, nesta medida, para ele, despir-se é uma condenação e não um libertar-se.
O início do filme é marcado por uma “coletiva de impressa” onde várias frases são lançadas à um operário. É nesta entrevista-interrogatório onde Pasolini enuncia o que seria seu “teorema”. Eis algumas das frases: “Se a burguesia transformasse o mundo em burgueses, não conseguiria triunfar em uma luta de classes?” “Seu patrão lhe deu esta fábrica, o que acha do gesto dele?” “O verdadeiro herói desta história é seu patrão” “Ele não o priva da esperança de uma revolução futura?” “Foi um ato isolado ou é uma tendência do mundo moderno?” “Considerando-o como um símbolo da nova tendência do poder, poderia ser uma primeira contribuição à transformação de toda humanidade em pequenos burgueses?” “Então a hipótese seria esta: um burguês, mesmo um dono de fábrica, aja como agir, sempre erra?”
Erra porque não consegue tranformar o mundo em peguenos burgueses, e erra porque ao tentar o contrário – isto é, promover uma revolução – a primeira coisa que faz é reproduzir os postulados que tenta superar. E se não consegue transformar o mundo em pequenos burgueses é porque o primeiro postulado da burguesia, a compra e a venda, requer um mundo reificado, onde os próprios sentimentos devem ser passíveis de caber num rótulo: a amizade num aperto de mãos, o amor no matrimônio, o sexo no pornográfico, o prazer no entretenimento, a produção num salário. Tudo sendo passível de ser rotulado e vendido, standardizado. Mas há o desejo, esse estranho e inominável elemento que perpassa e que embaralha todos os rótulos do jogo burguês. Esse elemento diabólico que fazia os padres pecarem, que levou Jesus à Maria Madalena e, quiçá, ainda conduza padres e freiras a estranhos rituais de fornicação e exponha a igreja a constantes ridículos. Este elemento do mundo pagão que não cabe na quantificação da moeda, que torna caduco o determinismo econômico onde querem nos inserir. O desejo que não pode ser negado porque toda negação do desejo é uma contradição e atenta contra aquilo que move a própria vida. Como diria Marx, a luta de classes é o motor da história, e por trás da luta de classes há o desejo. O desejo, esse elemento marginal que invade as beiras de estrada, os bares de ponta-de-esquina, as celebrações da favela e que constantemente expõe ao ridículo pais, mestres, machões, moças de família, senhoras distintas e grandes empresários. 
Eis o que acontece com a distinta família, todos erram, seja em sua prisão seja na tentativa desastrada e contraditória de se libertar sem romper com o cárcere, e continuam reproduzindo os rótulos desse estranho comercial de produtos denominado “condição social”. O filho que vai de uma casa para se prender em outra, a mulher que sai do insosso e cai no banal, a filha que sai da incapacidade de amar para o amor catatônico e a negação do desejo, a empregada que sai da subserviência para o auto-rebaixamento, o pai que sai do social para o inabitado. É esse o exato ponto onde se insere o “teorema” de Pasolini: o que deve mudar é o modo de viver, é preciso pensar uma vida que não reproduza os ditames da moeda, dos modos de produção, de individuação e de negação, imposto pela mesma, dos quais a família é – como foi involuntariamente diagnosticado por Rui Barbosa – a célula máter.
Na verdade, mais do que a família, a mídia cumpre esse papel hoje em dia. Seus personagens pré-fabricados entabulam modos de individuação, produzem sujeitos pré-programados, envasam os sentimentos na cápsula do estereótipo. É curioso que o filme de Pasolini e o livro “O Anti-Édipo” de Deleuze/Guatarri tenham apenas dois anos de diferença. Ambos tratam, por vias distintas, de um e o mesmo problema. Se Pasolini fala da família, como célula máter da sociedade, é porque fala das relações entre o indivíduo e a sociedade, da qual a família é – numa sociedade burguesa – aquilo onde melhor se representa, é porque a família é a etapa de aprendizado para a vida social. Deleuze/Guattari, por sua vez também falaram da sociedade, do indivíduo e da família, de fluxos de desejo, e de falência de um determinado modo de pensar e de individuação. Tema este que já foi prenunciado por outra dupla “Marx & Engels Co.”, quase um século antes (no Manifesto Comunista). Tema que passa despercebido pela maioria dos marxistas, mas que não passou despercebido por Deleuze/Guattari e muito menos por Pasolini, qual seja, a superação de uma sociedade burguesa não se fará a não ser superando o modo de individuação burguesa. É neste exato ponto, também, onde o marxismo de Deleuze/Guattari traz suas indiossincrasias e voz própria: mudar um sistema político é mudar um modo de viver, e mudar um modo de viver é alterar a imagem do pensamento e propor novos tipos de individuação. Não é de se admirar, assim, que Deleuze/Guattari comecem por questionar a família e sua formação edipiana, formação esta que é calcada nos meios de produção, na detenção das posses pelo pai, na submissão da mulher e dos filhos (que sempre foi muito mais uma submissão financeira do que psicológica). Não é a família em si o que é criticado pelos autores, mas sua formação burguesa, edipiana, e todos os agenciamentos e modos de viver que esta instituição – família – implica. Que os autores insistam no modo de vida nômade é simplesmente porque isso significa um novo tipo de individuação, calcada em outras relações. E é preciso inventar novos valores, novas formas de se relacionar consigo e com o mundo, novas formas de se envelhecer, novas formas de dar vazão à juventude, novas formas de se relacionar com as crianças; é preciso inventar uma nova forma de amar, de sorrir e de ter prazer; é preciso, enfim, inventar uma nova forma de individuação. Porque o Coringa – vocês sabem – quer sorrir.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Rio de Janeiro continua sendo...

Após décadas de marginalização, repentinamente, o poder público demonstra seu interesse pelos problemas sociais da favela. Assim... não mais que de repente... e logo após eleições presidenciais onde a direita fez tanta questão de promover o “candidato do bem”; agora, novamente se fala insistentemente em “tropas do bem”.

Concordo que a situação, do jeito que estava, já não poderia mais ser resolvida sem uma invasão do morro por tropas policiais e militares. A polícia do Rio de Janeiro equipada com revólveres calibre 38 jamais daria conta de traficantes com bazucas, bateria anti-aéreas, granadas, mísseis, barricadas, paredão de tiro e sistema de vigilância do território por câmeras de segurança. É quase uma piada... Mas uma coisa resta perguntar: como a situação chegou a esse nível?

Capítulo Um: A proibição

Primeiro, para chegar a esse nível é preciso dinheiro e financiamento. De onde isso vem? Do tráfico, obviamente. Mas porque há o tráfico? Porque há os usuários, diriam os consumidores de notícia pronta, os consumidores do pensamento delivery. Mas acusar o usuário de financiar o tráfico é ridículo. O usuário-dependente é muito mais uma vítima da droga do que financiador do tráfico, e o usuário que não é dependente tem poder de decidir que substâncias irá ingerir. O tráfico existe porque existe a proibição. Não há tráfico de cerveja ou de cigarros, substâncias com maior poder de destruição e de dependência do que a maconha, por exemplo. Mas bastaria proibir álcool ou cigarro para, no outro dia, aparecerem os traficantes, as armas, o crime, etc. A época de maior fortalecimento da máfia nos estados unidos foi justamente a época da lei seca. Foi a lei seca e a proibição do álcool quem criaram Al Capone e sua trupe. Uma vez liberado o uso da maconha, por exemplo, cria-se um rombo nas finanças do tráfico. Foram apreendidas 43 toneladas de maconha, o equivalente a 21.500.000,00 R$. Só com maconha! O que isso significa? Que se o usuário tivesse a oportunidade de plantar o seu pé de maconha no quintal de casa, ele jamais subiria o morro, e esse montante jamais chegaria às mãos dos traficantes. Por quê a maconha não é liberada? Pergunte à máfia organizada do tráfico, a qual não se resume somente aos favelados, mas também à políticos e homens do governo! Quem menos tem interesse na legalização da maconha são os traficantes e os políticos que se beneficiam do tráfico. Dito isso, podemos inferir que uma das causas da situação à que se chegou no Rio de Janeiro é justamente a proibição das drogas.

Capítulo dois: O descaso e as desigualdades

Eis o segundo ponto. Porquê nunca foi dado oportunidade às comunidades carentes? Muitos que estão ali e se envolvem com o tráfico o fazem somente porque nunca tiveram oportunidades na vida. Nunca tiveram oportunidade de uma educação de qualidade, de lazer, de esporte, de cultura. A única opção que tinham era entre trabalhar feito escravo e assistir TV. E aí o indivíduo resolve ser traficante. Ora, porquê? É óbvio! E aí me vêm os canais de TV afirmar como absurdo o fato do traficante ter uma casa com piscina numa comunidade onde muitos passam fome... Que piada! Quantas casas no Rio de Janeiro – onde muitos passam fome – têm piscina? A própria Fátima Bernardes – que acusou o traficante de tal “absurdo” – mora numa mansão localizada numa cidade onde muitos passam fome... Toda a elite carioca faz isso. Mas os holofotes se voltaram todos contra o traficante favelado, numa tentativa de esconder onde realmente ocorre as desigualdades, numa tentativa de esconder a real causa das desigualdades. Mas a causa da desigualdade não é o tráfico, a causa da desigualdade é a falta de oportunidade, a falta de educação, a falta de cultura, a falta de grana. O estado acirra as desigualdades e depois reclama da existência da marginalidade. Mas marginal é exatamente aquilo que está à margem, em muitos casos aquilo que foi colocado à margem pelo descaso das autoridades publicas. Enfim, o que vai acontecer? “Hoje, eu sou ladrão, artigo 157, a polícia bola plano, sou o herói dos pivetes”

Capítulo três, versículo quatro: A Copa do mundo é nossa! (e as Olimpíadas tambem!)




Pois é, o barato disso tudo é que só agora, às vésperas da Copa e das Olimpíadas é que os políticos resolveram “limpar” a cidade, impor a Pax Romana. Resolveram acabar com o crime mais ou menos organizado e calar a boca da população com as UPPs. E irão conseguir, daqui a quatro anos, todos estarão elogiando os políticos pelo feito “heróico”! Por ter acabado com o tráfico e com o crime que eles mesmos alimentam. É que não existe Estado se não há problemas para resolver, e o Estado moderno consiste muito mais num gerador de problemas para eternamente justificar sua existência. Enquanto o Estado puder manter o tráfico ele manterá, para justificar sua existência combatendo o tráfico; enquanto puder sucatear as estradas públicas ele sucateará, para justificar sua existência consertando as estradas; enquanto puder manter as desigualdades ele manterá, para justificar sua existência diminuindo as desigualdades. É um sistema de retro-alimentação, que funciona por feed-back. Não tenho ilusão quanto ao Estado moderno: ele é contraditório por princípio. Ou vocês acham que a coisa não anda por incapacidade das pessoas realmente? Seria julgar muito mal a capacidade intelectual do próximo. Com tanto dinheiro arrecadado dos impostos, seria muito fácil resolver os problemas. O problema é que, com tamanha evolução da tecnologia e o aumento da capacidade produtiva, uma vez resolvidos os problemas, o Estado perde sua razão de ser e leva com o ele a ideologia do lucro que pauta o mundo burguês. O estado tem que gerar a improdutividade para justificar as desigualdades. É melhor queimar dinheiro do que distribui-lo aos pobres. Porquê? Por uma razão muito simples: se o dinheiro for distribuído ele perde seu valor de troca, vira papel. E se a moeda vira papel a economia entra em colapso, e se a economia entra em colapso quem perde são os que estão no topo da pirâmide. É simples: é melhor jogar o leite fora do que distribuí-lo, pois se for distribuído o preço cai vertiginosamente, e se o preço cai os produtores perdem seu poder financeiro. E aí você me pergunta: porque o governo compra o excedente da produção de álcool e prefere queimá-lo a distribuí-lo? Para manter os preços, óbvio! Não se trata de tal ou qual presidente (evidentemente há os melhores e há os piores), mas se trata mesmo do que o Estado se tornou por princípio, e o seu princípio é a improdutividade. A finalidade do Estado moderno é meramente econômica, isto é, torrar o excedente da produção para manter a economia em alta. Eu disse: torrar, não distribuir! E depois nos dizem que a economia em alta diminui a pobreza... Mas a pobreza e a exploração sob controle é justamente a condição de uma economia em alta... O palpel do estado consiste apenas em manter a pobreza num nível em que esteja apta a consumir e a servir de mão de obra. O estado é aquele remador que, num barco, é encarregado de remar ao contrário; é o encarregado de criar pseudos-problemas para justificar o açoite. O Estado moderno é a trapaça burguesa. É simplesmente por isso que ele fará uma estrada que quebrará daqui a dois anos, justificando novos gastos do dinheiro publico, fazendo queimar o dinheiro para que ele não perca seu valor de troca (assim como ele queima o excedente da cana de acúcar, também queimará o excedente financeiro). E aí vocês me perguntam: porque ninguém acabou com o tráfico antes? Porque é preciso justificar o dispêndio de dinheiro com armamentos e com a polícia, porque muitos políticos recebem do tráfico. E porque resolveram acabar com o tráfico agora? Primeiro, não resolveram acabar com o tráfico, porque senão legalizariam ao menos a maconha e teriam criando um rombo nas finanças do tráfico. Segundo, porque estamos às vésperas da copa e das olimpíadas e a cidade precisaria ser limpa e não se poderia remover todo mundo da favela e jogá-los lá pra onde judas perdeu as botas, então, elimina-se ao menos os traficantes pé-de-chinelo (porque os que têm dinheiro não estão no morro, obviamente).


Capítulo quatro: Aquilo que me intriga...



Nessa história toda, o que mais me intriga é a necessidade de fazer coincidir o uso de forças armadas com o interesse da população. É a repetição incessante de imagens televisivas mostrando populares felizes com a invasão, cartas de apoio, etc. Evidentemente, não se trata, aqui, de negar que haja o alívio da população, e que eles se sintam aliviados da situação que viviam. Mas se trata, aqui, de perguntar o porque do interesse repentino das emissoras de TV em mostrar essa aliança entre população e forças armadas como se fossem um só corpo, em mostrar as forças armadas como representando os anseios da maioria da população. Uma ideologia ocorre quando a classe dominante faz seus interesses coincidir com os interesses da população, ou melhor, quando faz seus interesses se passar pelos interesses da população. O papel fundamental da ideologia é mascarar a dominação e a exploração. Por exemplo, O Estado moderno cuja finalidade meramente econômica é mascarada sob o princípio de “bem comum”. Posto isso, retomo minha pergunta: porquê a mídia está incessantemente batendo da tecla de que a ocupação do morro pelo exército representa os anseios da população? É difícil dizer que a população anseia que seu bairro seja sitiado e invadido pelas forças armadas... Os anseios da população não seriam, antes, por uma vida melhor, por educação, lazer, esporte, cultura, emprego, melhores oportunidades? Por quê tudo isso é deixado de lado, e o “laço da concórdia” é sempre atado unindo população-esperança-forças armadas? Por quê a repetição incessante de que “as forças do bem invadiram o morro” ou que “as forças do bem construirão novas instalações” ou que “as forças do bem trouxeram novas esperanças para o morro”? Seria o envio de alguma mensagem subliminar associando as “forças do bem”, “a esperança da população” e o “candidato do bem”? Da última vez que os militares representaram o anseio da população, deu no que deu... Mas acontece que, uma mensagem subliminar possui um poder de fogo muito maior do que uma palavra de ordem. A palavra de ordem cria resistências, ninguém gosta de obedecer; a mensagem subliminar deixa espaço para acreditarmos que chegamos por nós mesmo àquelas conclusões, nos pega com as calças arriadas, com as defesas abaixadas, é sempre enviada em associação com nossos desejos mais íntimos. A mensagem subliminar chega com pés de fadas em nossa cabeça, domina pela lisonja. Não negligenciem o poder de estrago que faz uma mensagem subliminar.


Mas ocorre que esse discurso chega exatamente ao fim de eleições presidenciais disputadas, onde a direita foi derrotada mesmo após uma campanha incessante da imprensa e todo o baixo nível e a apelação demonstrado pelos tucanos. Enfim, da última vez que se falou em militar nesse país, uma das coisas em voga era a associação entre o comunismo e o demônio, e entre as forças militares e as forças que iriam impedir que o demônio penetrasse em nossas fronteiras. Atualmente a direita americana usa o “terrorismo” como desculpa para cercear a liberdade pessoal e o direito de ir e vir, para aniquilar a capacidade de discernimento da população inoculando o medo em suas mente, para deixar todo cidadão psicologicamente armado contra seu vizinho ou seu colega de trabalho. E então? Logo após eleições presidenciais, com tamanha pressão da mídia contra a esquerda, eis que entram em cena as forças armadas, invasão de favelas, desmantelamento do QG do tráfico (mas não do tráfico mesmo), associação entre os interesses da população e os interesses das forças armadas. Qual seria o próximo passo? Reforço do exército para o combate ao tráfico? Reforço da polícia na favela (e nada de educação, cultura e oportunidades)? Ao bem da verdade, a associação entre os interesses da população e os interesses das forças armadas já foi feito, e não somente no Rio de Janeiro, mas tal associação já foi feita em todo o território nacional, já está se fazendo. É verdade que o brasileiro perdeu um pouco de medo de votar em um candidato da “esquerda”, vindo de classes baixas e que não é formado em uma instituição de ensino européia. Isso, por si só, já é um bom sinal. Mas a ascensão da esquerda fez aflorar também algo que estava adormecido no Brasil e que achávamos que não existia: os grupos de extrema direita e neo-nazistas, e as eleições desse ano, tão marcada por orkut, twitter, blogs, etc. deram provas disso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quebra de protocolo!

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Obrigado, Nicolelis! Já havia esquecido disso.

Aula inaugural, de Miguel Nicolelis, na UnB: aqui!

"Quando um sonhador delirante é derrotado, a mediocridade triunfa e isso é terrível."

Clap, clap, clap, clap, clap!!!!!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Água e sal

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A psicanálise, a astrologia e a metafísica de

Aristóteles: são tantas interpretações...
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Considerações sobre a Copa: um consolo para os inconsoláveis...

A derrota do Brasil para a Holanda mostra bem como lambanças podem se transformar em feitos históricos. Se analisarmos os dois gols da Holanda, veremos que ambos saíram de jogadas completamente erradas do time holandês. O primeiro foi um cruzamento mal feito para a área que, devido à confusão de Felipe Melo e Júlio César, resultou em gol. O segundo gol saiu de um escanteio mal batido (no primeiro pau, e baixo) e uma bola mal cabeceada (cabeceio com a parte superior da cabeça) que sobrou na área do Brasil. O Brasil não jogou mal. É evidente que a equipe não soube lidar com o resultado negativo, e perdeu a cabeça. Mas o jogo em si, não foi ruim. Dunga fez bem a parte dele. Chegou na seleção sem nunca ter treinado time algum, fez convocações se pautando pelas necessidades da equipe e pelo desempenho dos jogadores com a camisa da seleção, e, apesar do excesso de volantes, montou uma equipe forte e equilibrada. Boa defesa, bons laterais, bom ataque. O meio campo não era lá essa proeza de criatividade, mas fazia seu papel corretamente. Brasil e Alemanha (time técnico, bem armado e bem posicionado, eficiente no ataque e na defesa, excelente meio campo) foram as melhores equipes da copa, seguido da Holanda (time técnico, bom meio campo, bom ataque, mas que não sabe jogar na defesa). Argentina, com esse time, nunca me meteu medo (a defesa é uma piada, o ataque é bom mas o time não sabe sair com a bola nos pés, laterais não são bons, jogando em função de Messi - a "cereja do bolo" - e não em função do gol), nem a Espanha (que é louvada por ter um time ofensivo, mas que possui o pior ataque dentre os quatro semi-finalistas, e sem ter se deparado com alguma equipe realmente forte...). Além de tudo, Dunga peitou a digníssima Rede Globo e passou por cima de seu contrato de exclusividade feito com Ricardo Teixeira. Isto que, por si só, já mereceria destaque. O Brasil foi eliminado nas quartas-de-finais, tudo bem. Não se pode julgar um trabalho em vista de um único resultado, ainda mais um resultado que foi construído mais pelo acaso do que pela incompetência da seleção, ou por mérito da Holanda (que tinha um bom time, mas que não ganharia o jogo se não fosse a mão do acaso). É engraçado que as pessoas façam análises levando em conta única e exclusivamente o placar final, esquecendo-se de analisar como esse placar foi construído, que é o que realmente importa numa análise. Às vezes a vitória ou a derrota é mais um fruto do acaso do que do trabalho. O inverso aconteceu na Copa das Confederações, quando o Brasil venceu sem jogar bem. Novamente a imprensa analisou o resultado, e não o jogo. Não acho que repetimos o que ocorreu em 2006, quando o melhor time da copa era o time reserva do Brasil, que venceu todos os coletivos; que venceu a copa das confederações dando olé na Argentina e na Alemanha, mas que não foi escalado como titular porque a Globo e os patrocinadores tinha as suas preferências. Ronaldo fora de forma, Roberto Carlos sem jogar nada, Cafu já bem velhinho e sem acertar um cruzamento, Adriano jogando fora de sua posição; deixando Robinho, Gilberto e Cicinho no banco de reservas e colocando em campo jogadores que não se adequavam ao esquema tático empregado, o famoso “quadrado mágico”, que requeria jogadores de velocidade nas laterais e Adriano dentro da área – e não fora. Não digo de Ronaldo Gaúcho em 2006, realmente ele não jogou nada, mas estava isolado e fora de sua posição de origem. Não se pode exigir muito de um atacante jogando isolado, bem marcado, e praticamente fazendo a função de um volante. Não creio que a história tenha se repetido, como não cessa de ser afirmado pelos meios de imprensa. Mas estamos no Brasil, o país do futebol e não da análise tática, daí porque temos excelentes jogadores, técnicos medianos e péssimos comentaristas. Ademais, manifesto meu apoio à seleção Holandesa, que quase sempre foi “azarada” nas Copas, e seria injusto que times como a Inglaterra, França e Uruguai, que comumente apresentam futebol inferior às seleções holandesas, possuam títulos mundiais, enquanto que a Holanda não tem nenhum. Gosto da escola de futebol holandesa, que quase sempre apresenta um futebol técnico e inteligente. Que a Laranja Mecânica possa, enfim, conquistar a posição que merece no futebol mundial.

Au revoir...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Feliz 1984!

O ano era 1948, George Orwell publica então sua obra magna: 1984. O desenrolar do romance se passa em uma sociedade “fictícia”, regida pela figura de um déspota onipotente, onisciente, onipresente e inexistente: o Grande Irmão (Big Brother). O romance abordará um tema cada vez mais comum, e, paradoxalmente, cada vez mais aceito abertamente em nossa sociedade, qual seja, a manipulação da subjetividade. O livro segue na mesma linha de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932) e Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (1962). Assim como as duas obras citadas, 1984 traz um ambiente surreal, futurístico, colocando em foco problemas da sociedade atual; melhor ainda, narra o desenrolar de problemas que já eram atuais em sua época, e que, oxalá, não estejamos vivendo nos tempos narrados por esses autores. Contudo, à diferença destes dois, 1984 traz em seu bojo um discurso de natureza analítica a respeito do tema, que, por vezes, se sobressai à linguagem metafórica. Mais do que um romance, 1984 é praticamente um tratado – e muito antes dos escritos de Foucault – sobre o tema da coerção subjetiva a que somos submetidos constantemente, cuja natureza abstrata esconde uma sujeição real. Mais do que simplesmente denunciar a existência de tais coisas, o livro tece análises sobre a maneira como a “polícia do pensamento” e a “moral anti-desejo” funcionam na prática e no cotidiano, passando por temas como a eliminação de palavras, a deturpação dos sentidos das coisas, a criação de uma nova linguagem, eliminação do passado e da memória, eliminação das diferenças e dos estados comparativos entre as coisas, a impossibilidade de se conceber algo que não reproduza o estado vigente. A negação do desejo e a mutilação da linguagem geram um mutismo a todo pensamento próprio, como é bem demonstrado na dificuldade dos personagens em exprimir qualquer coisa que não seja ditada pelo Grande Irmão, ou, nas palavras do autor, cometer uma “crimidéia”. Chamou-me atenção o profundo conhecimento do funcionamento de coisas que hoje nos são tão corriqueiras, excessivamente banais para que dispensemos alguma atenção, porém bastante reveladoras acerca da época em que vivemos. Não são os grandes acontecimentos os que nos revelam. A história não é feita de grandes acontecimentos, mas da repetição incessante de pequenos atos, e são estes pequenos atos os que mais preocupam em nossa sociedade. A pequena tirania não difere em natureza da grande tirania, e ainda possui o agravante de ocultar-se na banalidade. Não vivemos na sociedade dos grandes déspotas, mas do pequeno tirano oculto em nossas almas. O Grande-Irmão (Big Brother) não existe somente como entidade social, mas também, e principalmente, como entidade reafirmada e reproduzida por cada indivíduo que a ele se submete. O instinto por segurança submete o desejo, a emoção, a vida. Quantos de nossos julgamentos sobre as coisas, sobre nós mesmos e sobre o outro, não são senão a reprodução da ditadura da uniformidade? Quantas de nossas percepções não são senão o enquadramento que o “olho social” impõe sobre as coisas? Por conta dessa percepção e desse julgamento, quantos já não foram “suicidados pela sociedade”, como diria Artaud? Ousar ir de encontro a esta percepção e a esse julgamento é condenar-se à derrota, como diria o sábio do Born to Lose. Porém, em 1984 esta derrota já não é mais uma derrota tão gloriosa e afirmativa como aquela sofrida pelos gregos nas Termópilas, mas uma derrota cotidiana, aquela capaz de dobrar até mesmo o joelho de Leônidas. Paro por aqui esta resenha, mais uma dose de pessimismo e eu serei internado...



Abaixo o Grande Irmão!
Putz...

sábado, 29 de maio de 2010

Epistola Amico

Caro amigo,

Descobri que os muros levantados pela fraqueza são, de todos, os mais difíceis de ser derrubado. Se te falei acerca de uma rebeldia mais madura foi somente porque percebi que não se luta contra a fraqueza, que não se luta contra os muros levantados pela fraqueza, pois estes devem cair por sua própria contradição. Quantas vezes não nos servirmos de nossa “luta contra o sistema” apenas para justificar nossas frustrações? Quantas vezes a auto-afirmação foi apenas dissimulação de nossa fraqueza? Quantas vezes a “alegria da existência” foi apenas o afogar-se num copo? Quantas demonstrações de heroísmo não escondem um ser raquítico sob o disfarce? Quantos ideais rebeldes não serviram para ocultar uma alma submissa? Não meu amigo, essa rebeldia eu não a quero mais. Minhas máscaras têm caído, todas elas, uma por uma. Os elogios acadêmicos, as honras e “distinções”, a vaidade lisonjeada; a cerveja, o barzinho, o relacionamento superficial, a música mais ou menos, a festa sem motivo, a fuga na multidão. Nunca me senti tão alheio a essas coisas. Como diziam os antigos, “a natureza tem horror ao vazio”. Essa frase aplicada à física também se aplica aos sentimentos. Virei quase um monge asceta erigindo o espírito, aqui, no cu do mundo (obs.: “cu” não tem acento, pois é uma monossilábica em “u”). Mas ainda prefiro uma tristeza real a uma alegria camuflada. A tristeza dos homens alegres ainda vale mais do que a alegria dos homens tristes. Que alguém se esforce por sua alegria, isso já o denuncia, e ainda preferiria a tristeza a me esforçar por ser alegre. Nunca construímos tantos muros ao nosso redor quanto quando lutamos por uma alegria fingida. Quantas pessoas fumam um baseado para não ver sua própria caretice? Não me espanta que tanto divertimento e tanto hedonismo seja apenas a fuga de uma vida sem sentido. Com essa alegria fingida nos ocultamos de nós mesmos. Esforçarmos-nos para sermos algo é a melhor maneira de demonstrar aquilo que não somos. E eu cansei de me esforçar para sentir alegria onde não sinto. Não me entenda mal, não quero fazer uma apologia à tristeza, nem me sinto depressivo ou coisa do tipo. Apenas já não consigo mais fingir algumas coisas para mim mesmo. Explodiste a casa, tu me disseste. A expressão talvez não tenha o mesmo significado para mim e para ti. Mas também sinto que explodi alguma coisa em mim, ou melhor, implodi carcaças que já não me deixavam enxergar a mim mesmo. Sinto-me ao mesmo tempo criança e velho. Cansado de tudo e de mim mesmo, e ao mesmo tempo com novos horizontes se abrindo à minha volta. Vejo à minha volta as ruínas de um tempo passado, os incontáveis restos de memória de uma vida passada ainda me assombram, me incomodam. Perturbam meu sono, como se diz. Nos últimos dez anos (ou mais), parece que só quis as coisas erradas. Olho para trás e me vejo no exercício do auto-flagelo, fazendo tudo contrariamente ao que queria e ao que acreditava. Em nome de quê? Em nome de valores e desejos que não eram meus. Em nome de alegrias e tristezas que não eram minhas. Em nome de guerras e batalhas que não eram minhas. É incrível que tenhamos falado de “alienação”, de “submissão”, de “artificialidade”, de “reacionários”. Hoje relembro de algumas coisas e vejo o quanto eu mesmo estava alienado de mim, submisso a “revoluções” e valores que havíamos lido nos livros. Não existe mudança quando ela não é viva, quando ela não segue sua necessidade interna. Reacionário é querer que as coisas mudem porque assim escreveu alguém. Reacionário é aceitar valores que não são seus, sejam eles impostos pela sociedade, sejam eles encontrados nos livros de teor libertário. Em um desses livros li que “a classe média, a burguesia, em muitos casos, faz um uso perverso das leis”, mas acredito também que os eruditos de hoje, em muitos casos, fazem um uso perverso da liberdade. É estranho como o discurso sobre a liberdade degenerou em troca de acusações. Os cristãos acusando os ateus, e vice-versa; fulano acusando beltrano em nome de “valores nobres”, e beltrano esbravejando em nome do povo; um acusa o outro de ser dialético, e o outro acusa o um de ignorar a materialidade da vida. “Recalcado” ao invés de ser um termo para trazer à tona os problemas de outrem e podermos melhor enxergá-lo, atualmente se tornou um xingamento. Quando vemos alguém com problemas internos, ao invés de lidarmos melhor com o problema, podemos então ajudar essa pessoa a se destruir e lançamos em sua cara “Recalcado!”. Existem outros termos também como “ressentido”, “cristão”, “maconheiro”, “porra louca”, etc. etc. etc. A lista não tem fim, e é estranho que a linguagem ultimamente tenha criado tantos xingamentos e tão poucas palavras para louvar. Atualmente nos preocupamos apenas em devolver o xingamento com outro xingamento. É estranho que todo termo rapidamente se transforme em xingamento. Creio que é porque ninguém louva, apenas xinga. Melhor ainda, creio que é porque ninguém sequer pensa no que está fazendo, apenas associa tudo o que vê a um nome feio. Aprenderam a xingar ao invés de pensar, e ao seu xingamento chamam rebeldia. Como crianças mimadas, não refletem mais sobre aquilo que lhe incomoda, sobre suas razões e sobre a maneira de superar ou contornar, apenas reagem xingando. Sequer têm forças o suficiente para enfrentar o problema: apenas xingam. É espantoso que a liberdade tenha sido defendida de maneira rancorosa, tão acusativa. É espantoso que a defesa da liberdade tenha sido utilizada para uns e outros se auto-erigirem como heróis da raça humana. Esta liberdade eu também não quero mais, ainda prefiro a prisão domiciliar em que atualmente me encontro. Diante desse tipo de liberdade, essa prisão tem sido um ninho. Como disse, “a natureza tem horror ao vazio”. Prefiro admitir o meu horror ao vazio, o meu receio e o meu medo de cair no vazio em nome de princípios louváveis. Enfim, caro amigo, se te disse de uma rebeldia sutil é porque antes de ser um herói vazio, eu prefiro ser um cidadão comum, e se aqui escrevo em nome de um personagem, é porque este é um anti-herói, um herói sem-nome, e se é sem nome não é porque quer ser imperceptível, é somente porque não quer uma identidade vazia.

Adiós, hombre! Hasta la vista!

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Tratado da Correção do Intelecto, de Espinosa: considerações

O Tratado da Correção do Intelecto data de 1661, nessa época Espinosa tinha 29 anos. Muito jovem ainda para o círculo de anciãos de que se compõe a filosofia, ainda mais se considerarmos a amplitude do projeto anunciado: a correção do intelecto. Como se toda filosofia de até então se constituísse em fábulas e em equívocos da razão humana, aos 29 anos, Espinosa – um jovem desconhecido – se propõe a corrigi-la e não se intimida em face da grandiosidade dos nomes que a compõe: Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino e Descartes, para citar alguns. Como Ulisses na morada dos Ciclopes, Espinosa não se deixa afetar pela grandeza daqueles que habitam a ilha da filosofia. O jovem Espinosa se lança, então, em sua guerra contra os disparates da razão humana, contra a religião e contra a organização da sociedade; neste Tratado que pretende curar a razão humana de seus próprios fantasmas, recriando um mundo pautado na comunidade de todos os homens, no amor para com a existência e na alegria de ser gente.

Este livro contém em germe a Ética, e nele já percebemos o caráter próprio da filosofia de Espinosa: a definição genética, a imanência, o método construtivo, a definição positiva da verdade e a noção de autômato espiritual. Neste pequeno livro são enunciadas quase todas as teses que permitiriam a Espinosa ultrapassar o cartesianismo (exceção feita à idéia de expressão) e, mais que isso, construir um sistema onde não há lugar para as sombras do negativo, do confuso e da impotência, fazendo-se notar – desde jovem – a força do pensamento de Espinosa, a força de um pensamento que é movido por sua própria potência e não pelo medo de errar. O erro, as ficções, as idéias falsas, as idéias duvidosas, não são estes os fios condutores: a verdade é encontrada por si mesma. A verdade não requer defensores externos e nem pode ser julgada a partir do que é falso. O falso, a dúvida, o negativo são perspectivas ruins para o julgamento da verdade. Tal como a luz que por si mesma se dá a conhecer, e através dela que sabemos o que é a luz e a escuridão, é através da idéia verdadeira que sabemos o que é a verdade e o falso, tal idéia se basta a si mesma e não necessita de garantia externa. Com a formulação de uma verdade imanente à definição Espinosa revoluciona a história da filosofia: o verdadeiro e o falso não devem ser julgados a partir de critérios externos. O conhecimento verdadeiro coloca os critérios para si mesmo e para o falso: a verdade não necessita de defensores, nem mesmo de Deus. Com esse Tratado Espinosa cura a razão humana dos critérios externos a si mesma, critérios segundo os quais ela aparecerá sempre carente de apoio, negativa. À correspondência do pensamento à coisa, Espinosa responde com a produção da definição pelo intelecto, com a proposta de um intelecto são e gerador de definições verdadeiras. A idéia não é verdadeira por ser adequada, mas o inverso, é adequada por ser verdadeira. Ao isolamento político do indivíduo, Espinosa propõe a comunidade de todos e a relação entre todas as idéias verdadeiras. À mutilação dos universais, propõe a construção do singular e do simples. À razão duvidosa, confusa e negativa, Espinosa propõe a alegria do conhecimento verdadeiro, adequado e afirmativo. O Tratado da Correção do Intelecto é, assim, uma espécie de abertura – e que abertura! – e preâmbulo para a sua obra mor: a Ética. Embora seja uma obra inacabada e sem dar maiores desenvolvimentos às suas propostas, o Tratado da Correção do Intelecto já permite antever o que viria: um sistema filosófico dos mais sofisticados e estruturados – senão o mais sofisticado – da história da filosofia. O Tratado da Correção do Intelecto é um livro audacioso nas suas pretensões e nos seus resultados, escrito por um jovem filósofo de 29 anos e ainda desconhecido, um livro pequeno (cerca de 26 pg.) e inacabado que possui em germe a força para afrontar mitos milenares da razão humana.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

2000 anos depois...



Sábado de Aleluia


E o rancor cristão


Ainda se vinga de Judas


terça-feira, 30 de março de 2010

Kill Bill




Texto sobre Kill Bill, postado em parceria no blog Born to Lose







Para acessar clique "aqui
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sábado, 6 de março de 2010

Warhol: a agonia e a o grito colorido de uma imagem repetida



Smile, say “Warhol”, please

Nosso cotidiano é profundamente marcado pelo mass-media, somos bombardeados com mensagens – subliminares ou não – o tempo todo, seja dentro de casa, no emprego ou nas ruas. É característica própria do mass-media a veiculação de mensagens que serão compreendidas por todos de maneira similar, de maneira massificada. As HQs  (Histórias em Quadrinhos) são um bom exemplo disso, tanto por se inscreverem no seio da massificação quanto, por outro lado, conseguirem extrair da massificação uma linguagem artística própria. É bastante significativo que artistas como Roy Lichtenstein e Andy Warhol – os gurus da Pop Art – dedicassem atenção especial às HQs. Ocorre que estas narrativas se utilizam de padrões (standard) que permitem – ou, antes, obrigam – que os milhares de leitores interpretem as imagens, os textos e a seqüência da história de uma mesma maneira.[1] Este é um procedimento precioso ao mass-media no sentido em que não pode se dar ao luxo de permitir que as pessoas interpretem ao seu bel prazer as suas mensagens. O que seria de uma propaganda comercial ambígua? E se o consumidor entender a mensagem de um modo que desvalorize o produto? A propaganda comercial tem que ser rápida, clara, objetiva, sem ambigüidades acerca da mensagem a ser transmitida, e ainda assim, bela. Tal é o ponto em comum entre o mass-media e as HQs. A diferença entre eles é que as HQs não ficam presas à divulgação de um produto, podem divagar livremente no sonho, estão mais atentas ao quesito beleza do que ao quesito mercado. Uma diferença extremamente importante, evidentemente. A Pop Art levará adiante a proposta dos HQs e se servirá dos ícones do mass-media por serem elementos comuns ao cotidiano, e que são interpretados de forma similar pela maioria das pessoas. A coca-cola, Marilyn Monroe, Elvis Presley, Che Guevara. Basta a silhueta da garrafa de coca-cola ou o esboço do rosto de Marilyn para que eles sejam imediatamente reconhecidos. Lembrando que estes ícones não se reduzem somente às figuras humanas ou marcas comerciais, mas abarcam também os ícones produzidos pelo sensacionalismo da notícia, como desastres aéreos, tumultos civis, terremotos, pena de morte, Copa do Mundo, fofocas, etc. Aquilo de que se serve a Pop em suas obras não são somente as grandes marcas, mas tudo aquilo que circula e que é absorvido por um grande público. Eis a grande sacada da Pop Art: utilizar-se de produtos do mass-media (ícones da televisão, do rádio, da notícia, dos outdoors, das propagandas comerciais) como matéria prima para a linguagem artística. Tal utilização dota a Pop Art de uma linguagem que pode ser absorvida por qualquer cidadão em qualquer parte do mundo, independente de cor, raça, nível de educação, classe social ou opção sexual, isto que confere uma universalidade à Pop Art que inexiste em outros movimentos artísticos. Uma das funções da arte é comunicar um sentimento através da matéria (seja ela física, imagética, sonora ou verbal), e extração e a comunicação de um feeling a partir de uma matéria bruta amplamente conhecida coloca a Pop Art na posição de uma das vanguardas mais frutíferas do séc. XX. Não é de se admirar que tenha exercido influências em âmbitos tão díspares como o Psicodelismo, Michael Jackson, Basquiat, o Rock’n Roll e o Tropicalismo. Seja na pintura, na música ou na literatura, seja nos EUA ou nos trópicos, desde movimentos reconhecidamente midiáticos, até aqueles que iam de encontro aos valores vigentes, todos eles se serviram de técnicas da Pop Art. O que fez da Pop Art um fenômeno mundial não foi o seu caráter comercial, mas a universalidade de sua comunicação. Um quadro de Elvis, uma cadeira elétrica, são ícones reconhecidos e compreendidos de maneira similar em qualquer lugar do mundo. A utilização de ícones do mass media como tema para as obras facilitam o acesso às mesmas. Estes ícones, aqui, são a matéria prima a ser transformada em linguagem artística, e não  simplesmente apologia ao consumismo ou ao sensacionalismo.

Ocorre que a relação entre o tema, as cores e as técnicas de reprodução e repetição utilizadas por Warhol conseguem extrair uma potência imagética singular, criando uma poética própria. Em alguns casos a imagem consiste simplesmente numa repetição monocromática de uma imagem retirada dos jornais. Para essas lavadas monocromáticas, Warhol geralmente utiliza a imagem de algum tipo de tumulto, acidente, ou alguma coisa que tenha a ver com o caos e com a morte, como por exemplo em Orange Disaster (acima) ou em Red Race Riot, ambos de 1963. Orange Disaster é composto apenas da repetição monocromática da imagem de uma cadeira elétrica. Esta obra possui ares sinistros, a imagem repetida de uma cadeira elétrica isolada numa sala de execução; a cor escolhida não é a crueldade do vermelho, mas um tom de laranja velho, ácido e radioativo, cuja lugubricidade é ressaltada pelo preto que o acompanha. O quadro é uma velhice corrosiva. O retrato fiel do carcereiro que habita em nossos julgamentos e que aprisiona nossos espíritos. A imagem da cadeira elétrica como tema cai como uma luva porque evoca, desde já, o julgamento, a condenação e a morte. Este simbolismo é despertado de maneira similar em qualquer lugar do mundo, em qualquer faixa etária e classe social. Os tons sujos que compõem a obra nos remetem imediatamente ao submundo das grandes cidades, à pobreza, à cadeia, à vida aprisionada, julgada e condenada ao ressentimento típico desses elementos.

No lado oposto há as composições a partir do retrato de Marilyn Monroe. Aqui o artista escolhe o que seja, talvez, o maior mito da publicidade. Marilyn Monroe é retratada por Warhol quase sempre com cores vibrantes e em imagens chapadas. Embora se trate de um retrato não há a expressão psicológica do retratado. Os quadros não buscam captar a personalidade de Marilyn. Os tons vibrantes e a utilização da serigrafia quase sempre fazem o rosto de Marilyn desaparecer sob as cores. Os quadros de Marilyn retratam o sexy appeal, mais do que a própria Marilyn. E o que era Marilyn senão um produto do mass-media para representar o sexy appeal? Porquê escolher Marilyn? Porque qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo sabe o que Marilyn representa. Basta um retrato de Marilyn para criar uma obra de arte? Não. Além do rosto da loira há também a mão do artista, que o estiliza em cores ardentes – quentes e vibrantes – e linhas sinuosas e agressivas. Aí está um retrato fiel do sexy appeal. Marilyn está para o séc. XX, assim como a Afrodite está para os gregos. Marilyn retratada ora em serigrafia e com cores ardentes retiradas dos anúncios de revista e outdoors; ora em negativos de fotografias e em luzes quentes extraídas dos anúncios em néon da vida noturna. A composição de Warhol transborda o ícone Marilyn Monroe, conseguindo identificar o sexy appeal das luzes da vida noturna e dos anúncios chamativos. O feeling da obra transborda a imagem de Marilyn e capta o sexy appeal de uma metrópole inteira. Com a Marilyn de Warhol a metrópole inteira se torna sexy: a vida na metrópole é um tesão.

Tanto o quadro da cadeira elétrica quanto o quadro de Marilyn possuem elementos em comum: ambos têm como tema ícones vastamente conhecidos e compreendidos de forma similar em todas as partes do globo terrestre, as cores utilizadas e a composição da obra remetem a um feeling já contidos nestes ícones, mas também os transbordam e permitem associações deste mesmo sentimento à elementos da vida urbana. Com um ícone minuciosamente extraído do mass-media, com a escolha extremamente precisa e cônscia das cores (Warhol estudava acuradamente as cores de suas composições), com a utilização de traços e linhas muito cuidadosa e utilizando-se dos mesmos processos tipográficos que os jornais e propagandas de revista, Warhol consegue saltar do retrato de um rosto – ou da imagem contida em uma notícia – à expressão de um século inteiro. Assim sendo, seria incorreto se disséssemos que o séc. XX é uma obra de Andy Warhol? O fato é que Warhol se atém a tudo o que há de mais repetitivo em nossas vidas: as imagens do mass-media, as cores da propaganda, a imagem impressa através de chapas ou serigrafia, a exposição repetitiva do mesmo objeto e as linhas estilizadas dos produtos de consumo (seja a linha elegante das grandes marcas de moda, seja a blotted line dos produtos baratos). Tudo isso conjugado em uma composição cujo grito faz tremer alguma coisa em nós mesmos e reacende uma chama há muito tempo escondida por esses mesmos estereótipos e imagens standardizadas do mass-media. A arte de Warhol é antropofágica exatamente naquilo que ninguém cria poder ser deglutido: da escravidão mental imposta pelo mass-media, Warhol extraiu o seu sonho liberador, o seu grito, a sua canção. No muro do mass-media, tão avesso a pichações, foi este o local improvável que Andy Warhol escolheu para fazer suas travessuras e marcar de uma vez por todas a sua passagem única por este planeta. Why so serious? Amém!


[1] “Lichtenstein [Roy Lichtenstein, Nova York, 1923] dedicou-se a um dos principais canais da cultura de massa, as narrativas ilustradas (cartuns, histórias em quadrinhos); de fato, um dos sintomas mais preocupantes da propensão da sociedade contemporânea a negligenciar o discurso, a linguagem articulada, a escrita e a leitura. A análise da banalidade desse tipo de comunicação, feita por Lichtenstein, é metodologicamente irrepreensível. Isola uma imagem da tira, aumenta-a, estuda acuradamente os processos, inclusive tipográficos, que a tornaram comunicável em milhões de exemplares: reproduzindo-o manualmente, com microscópio, ele demonstra que esse processo de produção industrial de imagens é de absoluta correção, um modelo de perfeição tecnológica. Coloca-se, em suma, na posição de diretor técnico, que sabe quais foram os problemas e dificuldades enfrentados para chegar ao padrão que permite que milhões de pessoas leiam ao mesmo tempo a mesma narrativa, interpretem-na do mesmo modo, sintam a mesma emoção momentânea e, um segundo depois, esqueçam-na. Os consumidores de histórias em quadrinhos são poupados de qualquer mínimo esforço intelectual; tudo foi pensado, preparado, digerido de antemão. A pintura (mesmo que já não se possa chamar assim) de Lichtenstein é uma prova de inteligência, mas em essência demonstra apenas que o artista pegou o truque, e está capacitado para participar do ‘truste dos cérebros’”. ARGAN, Arte Moderna – do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Cia das Letras, 1992. Pg. 582-584. Considero a análise de Argan perfeita no que toca às técnicas utilizadas pelas HQs e reproduzidas por Lichtenstein, contudo Argan – assim como a grande maioria dos críticos de arte – negligenciam aquilo que constitui a potência própria tanto das HQs como da Pop Art.   

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

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Questão de perspectiva:

e o que pode ser mais profundo que a superfície?
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O Selvagem da Motocicleta

Filme de Francis Ford Coppola. O filme foi lançado no Brasil com o título: “O Selvagem da Motocicleta”, é um bom título. O título original é: “Rumble Fish”. Rumble pode significar “estrondo”, “ribombo”, “ruído”, e pode significar também “briga de rua”, ou “descoberta”. Fish pode significar “peixe”, ou também, como gíria, “prisioneiro”, “pessoa boba”, “vítima fácil”. Rumble fish é tudo isso.

Sinopse: O filme é em preto e branco. O estado de espírito do personagem principal também. O único momento em que as cores aparecem é quando as câmeras focalizam os peixes. Por quê?

Trailler: "Só porque uma pessoa tem uma visão de mundo diferente das pessoas em geral, não significa que ela seja louca. Uma percepção mais apurada não significa loucura. No entanto, às vezes, esta percepção apurada pode te levar à loucura. Ele apenas ganhou um papel na peça errada. Ele nasceu na época errada, do lado errado do rio. Com a capacidade de fazer o que quiser e sendo incapaz de encontrar algo que queria fazer. Você não me entende não é? Tenho certeza. Esta é a diferença!"

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Aos sábios


Não fosse a loucura e a tolice, o que seria de vcs?

Ao Batman


Eu sou mais interessante que vc!

Uahuahuahuahuah

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lars Von Trier: O Anti-cristo

Acho que duas coisas são capitais para a compreensão do filme: o conhecimento da psicologia do cristianismo, tecida por Nietzsche, e algumas propostas artísticas de Antonin Artaud. Vamos por partes.

------------------------------------ (i) ------------------------------------

O nome do filme é “O Anticristo”. Von Trier possuía conhecimento acerca da filosofia nietzscheana. Nietzsche possui uma obra chamada “O Anticristo”. É prudente, então, analisar o filme sob a ótica da psicologia do cristianismo apresentada por Nietzsche em obra homônima ao filme de Von Trier. A principal crítica de Nietzsche é acerca da inversão de valores promovida pelo cristianismo. Dois pontos desta crítica são representadas pelos personagens masculino e feminino (que não possuem nomes próprios). De um lado o ideal da razão altruísta e arrogante em sua tentativa de “enquadrar” as coisas em seu esquema de pensamento, o qual é representado pelo personagem do marido. De outro lado a sensibilidade culpada e doentia, representado pela esposa que concebe sua sexualidade sempre como algo maligno e cercada de imagens sombrias. Um caldeirão explosivo, certamente. Eis dois casos em que o ser humano vai de encontro a si mesmo: quando dedica mais atenção ao outro do que a si, e quando vai de encontro aos seus próprios sentimentos. Isto que é muito bem representado na figura da raposa que morde a si mesma enquanto afirma “O caos reina”. No filme de Von Trier, homem e mulher são duas faces de uma mesma moeda, daí porque seu relacionamento é marcado pela violência mútua um para com o outro. Violência essa que não é senão o reflexo externo da violência para consigo, isto é, do cristianismo arraigado em suas almas.

O filme traz ainda um outro problema: as mutações do cristianismo. De um lado temos as cenas da fogueira e dos manuais de caça às bruxas, do outro lada temos a versão moderna do padre: o terapeuta, o psicanalista. O terapeuta é o padre pós-moderno. Aquilo que morre no final do filme é o cristianismo, o homem que abandona seu altruísmo quando mata a esposa. Nesta cena se acabam as duas representações do cristianismo: o altruísmo e a culpa. Alguém tem que morrer: a interpretação cristão da vida. Daí porque a vida ressurge no final do filme. Um final com final feliz, diria eu...

------------------------------------  (ii)  -----------------------------------

Outro ponto importante para a compreensão do filme são as técnicas de encenação propostas por Antonin Artaud. Em seu artigo “Para acabar com as obras primas”, Artaud defende a concepção de uma arte que interaja psicologicamente com as pessoas. Segundo Artaud, deveríamos abandonar a concepção de teatro que coloca o público de um lado e o espetáculo do outro, deveríamos viver o teatro tal qual as sociedades primitivas o fizeram em seus rituais totêmicos, ou como a sociedade grega o fez nas dionisíacas. O teatro, segundo Artaud, deveria ter uma função terapêutica e promover uma espécie de catarse nas pessoas, para isso deveria condensar imagens fortes e com alto poder simbólico despertando reações inconscientes nas pessoas. Não discutimos aqui os riscos contidos em tal proposta, os quais são reconhecidos pelo próprio Artaud. Mas gostaríamos de apontar para as semelhanças entre a técnica proposta por Artaud e os recursos utilizados por Von Trier. Aliás, Von Trier já aplicou técnicas de hipnose em um de seus filmes, para facilitar a concentração do espectador. Em outra ocasião - em Dogville - se utilizou de uma voz em off, conduzindo a atenção do espectador tal qual num processo hipnótico. Comumente Von Trier retira de seus filmes todo elemento superficial à trama, chegando inclusive a retirar o cenário de Dogville e a retirar os nomes próprios em “O Anti-cristo”, facilitando assim que a história se passe num nível inteiramente psicológico. Sobre o Anti-cristo Von Trier dirá: “foi como uma terapia”. Considerando-se as semelhanças com as propostas de Artaud e o histórico do diretor, há de se considerar que um método de exegese que apenas busque pelos significados não poderá dar conta do filme. É necessário mais do que isso. O filme é literalmente para ser sentido, “para provocar transes”, como diria Artaud. A pergunta para o filme de Von Trier não é “o que quer dizer?” mas “o que quer fazer?” ou “o que quer destruir no inconsciente do respeitável público?”. O filme de Von Trier não é concebido como uma obra passiva diante do espectador, muito pelo contrário, ele é concebido para agir no espectador, daí porque um método de exegese comum será sempre raquítico diante de "O Anti-cristo". O filme exige um método que dê conta de sua atividade, e com isso requer, também, um outro tipo de racionalidade, menos cristã talvez...

Fênix

Agonia diante da morte,

Pássaro na casca do ovo:

Estou aqui!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Quarto escuro,

o louco canta:

eu danço.

The fool

O LOUCO é um andarilho, enérgico, ubíquo e imortal. É o mais poderoso de todos os Trunfos do Tarô. Como não tem número fixo, está livre para viajar à vontade, perturbando, não raro, a ordem estabelecida com as suas travessuras. Como vimos, o seu vigor o impulsionou através dos séculos, onde ele sobrevive em nossas modernas cartas de jogar como o Coringa. Aqui ainda se diverte confundindo o Estabelecimento. No pôquer fica louco, capturando o rei e toda a sua corte. Em outros jogos de cartas surge quando menos se espera, criando deliberadamente o que decidimos denominar um erro de carteio.

NICHOLS, S. Jung e o Tarô: uma jornada arquetípica.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Considerações sobre as sementes e as cascas...

O que poderia vos dizer sobre sementes lançadas ao vento? Primeiro: que são sementes. Segundo: que eu não sei mais. Entretanto somos todos semeador e semente lançadas - por um semeador maluco, quem sabe? Mas o semeador não é o que importa, talvez sejamos, nós mesmos, semeador e semente, enigma e decifrador, porém nunca resposta. Sim, sementes, é o que somos. Pequenos grãos que não podem ficar para a posteridade. Há aqueles que pregam a posteridade, mas estes já não podem mais brotar, sua casca já é demasiado fossilizada. Resta-nos apenas a fé no vento. Que a tempestade seja a nossa guia mais confiável. Há certas coisas que nos é impossível a compreensão (não adianta forçar a barra, amiguinhos). O que seria da vida se não fossem os paradoxos? Não adianta franzir a testa para respondê-los. Que a queda no abismo seja o momento de vosso riso. Que mesmo vossa queda seja um tropeção involuntário.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Borderline

Linha de borda para franco-atiradores do hospício sagrado da rua. Linha de borda traçada pela prancha na onda: linha de body-board. Linha de borda, silhueta traçada pela navalha dos olhos. Linha de borda, risca-faca do pensamento lunar. Linha de borda, minha alma pulando no abismo dos intermediários. Linha de borda, arrastão do ser. Linha de borda, qualquer coisa que ainda não existe, mas que já existe. Linha de borda, o crepúsculo e a alvorada abrindo brechas no arranha céu. Linha de borda, um buraco na teia. Linha de borda, um rio na cheia. Linha de borda, um fio de lã destecido e destrançando o crochê. Linha de borda, desfazer-se, desaprender-se. Linha de borda, descumprir-se a criação. Linha de borda, a fronteira do inevitável. Linha de borda, o choque do acaso com a imanência, e vice-versa. Linha de borda, a eminência do não sei o quê, propulsionado pelo amadurecimento da polpa sem ser acompanhado pelo rompimento da casca. Linha de borda, ovo atômico do caos. Linha de borda, estouro das divisórias das coisas da vida. Linha de borda, névoa acariciando a noite do não-ser. Linha de borda, o canto da sereia. Linha de borda, Ulisses sem cera nos ouvidos, mas muito firmemente amarrado no mar do desconhecido. Linha de borda, a razão pulando e dançando como se fosse valsa, e como se fosse falsa a perda de todas as referências em um baile de máscaras.